Desde a chegada do coronavírus no Brasil, milhões de pessoas estão sendo orientadas sobre a importância de permanecerem em casa, como forma de aplacar a propagação do vírus e salvar vidas. A necessidade do isolamento é tão certa quanto os impactos sociais e econômicos na vida da população, sobretudo, a mais pobre e feminina. 

Por essa razão apontamos, neste documento, os impactos dessa crise na vida das mulheres, uma vez que a restrição imposta pela pandemia alterou, sobremaneira, a rotina das mesmas, provocando uma sobrecarga de trabalho doméstico, maior exposição à violência e vulnerabilidade econômica, reforçando ainda mais a desigualdade de gênero.  

Somado a toda desigualdade em que as mulheres se encontram, no contexto da epidemia do coronavirus, as mulheres que vivem com HIV/AIDS têm ainda dificuldades acrescidas em diversos aspectos, ora em questões específicas dos medicamentos e acesso aos serviços, ora por fatores que vão além do agente viral, como os socioeconômicos.

Dentre os impactos apontamos:

São as mulheres que realizam a maior parte do trabalho doméstico, mesmo quando trabalham fora. Quando crianças são liberadas das escolas e quando idosos necessitam de cuidados especiais, sabemos que essas responsabilidades, não remuneradas, recaem especialmente sobre as mulheres. Além disso, são elas quem planejam e gerenciam todo o cotidiano da casa, como limpeza, compras, etc. Para as MVHA,  além dessa realidade, existe a rotina do tratamento, não tão simples, pois exige disciplina, organização e tempo, o que impacta, ainda mais na carga mental e emocional e, muitas vezes, invisíveis aos familiares,  amigos e profissionais de saúde 

Muitas MVHA estão há anos fora do mercado de trabalho e foram desaposentadas no chamado pente fino do INSS. Esta situação somada às questões emocionais como o medo, a incerteza, o constrangimento por depender do apoio de parentes, vizinhos ou amigos, têm contribuído para uma alta prevalência de depressão, transtornos de ansiedade, transtornos do sono, síndrome do pânico e fibromialgia. Essas comorbidades, somadas ao isolamento, têm agravado ainda mais a saúde psicossocial dessas mulheres.

Se não bastasse todo o preconceito e violência que vulnerabilizam as mulheres cis e trans que exercem trabalho sexual, o número reduzido de pessoas circulando nas ruas tem impactado severamente essa população, implicando na falta de recursos financeiros para pagamento de suas contas e, principalmente na sua sobrevivência.

A determinação para ficar em casa diante da pandemia do coronavírus, não é válida para todos, uma vez que a realidade das mulheres mais pobres, que moram em condições precárias de habitação, sem acesso a saneamento básico, somado a má nutrição e o fato de viverem com HIV/AIDS e outras patologias, as tornam ainda mais vulneráveis e suscetíveis a outras doenças.

Ainda, em se tratando de pobreza extrema, muitas delas estão em situação de rua e uso de álcool e/ou drogas estando à margem da vida e da prevenção, sem acolhimento e acesso a insumos básicos para higienização e saúde como:  alimentação, água limpa e sabão para lavar as  mãos, álcool em gel, sabonete e, aos que apresentam qualquer sintoma da covid-19, uma máscara, na tentativa de minimizar os riscos à pessoa e a outras com quem se relacionam.  

A violência contra as mulheres, antes da epidemia, já se apresentava como um grave problema social. A atual situação de isolamento social e o aprofundamento da crise econômica elevam as tensões nos lares, expondo mulheres e crianças a violência doméstica, sexual e econômica. Com a restrição de deslocamento, essa situação pode ser agravada, uma vez que pedir socorro ou denunciar a violência pode não ocorrer pela dificuldade de locomoção e de atendimentos em órgãos específicos. Portanto, fazer o isolamento social com o agressor pode significar uma sentença de morte para muitas mulheres. 

Isoladas, as mulheres que vivem em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas também sofrem e expressam o medo de não conseguirem sobreviver com a chegada desse novo vírus. É sabido que o acesso, principalmente das ribeirinhas, é feito por pequenas embarcações onde a viagem pelas águas pode durar dias e, as restrições mais severas impactam diretamente no acesso aos serviços de socorro, medicamentos, por exemplo, antiretrovirais, e abastecimento de alimentos e mercadorias para essas comunidades. 

É certo que um vírus não vê gênero, tão pouco raça/cor de quem está pela frente, mas existem questões que afetam, em alto grau a mulher, pobre, preta e periférica. A desigualdade e os fatores de raça/cor é um delimitador para retirar a garantia de direitos e de cidadania das mulheres negras, geralmente com práticas racistas que resultam em exclusão e morte.

Diante desse quadro, o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas considera de extrema importância que seja incorporado às respostas dadas a crise da COVID -19, uma perspectiva acerca dos impactos dela na vida das mulheres que vivem com HIV/AIDS. 

Ainda, que o Estado ofereça, possibilidade um pouco melhor, de sobrevivência para as mulheres, estendendo os benefícios de Prestação Continuada para mães chefes de família, de baixa renda em quarentena cuidando dos filhos e,  insira no Programa de Renda Emergencial as famílias de mulheres que vivem com HIV/AIDS em condição de vulnerabilidade é, também de extrema importância que seja garantida a continuidade dos serviços essenciais para proteção à vida das mulheres, especialmente nos casos de violência contra as mulheres em período de reclusão. 

 Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas